26/07/2011

Acho que nunca escrevi sobre isso aqui, mas uma força me atrai a tudo o que se refere à crianças: livros, filmes, desenhos e as próprias crianças...
Recentemente, li "Três maneiras de escrever para crianças" do C.S. Lewis e, como tenho algumas ideias para um conto (ou livro, não sei até onde vai chegar) para esta faixa etária, tive a sensação de que ele "disse" o que eu precisava ouvir.
Trata-se de um breve ensaio sobre o que uma criança gostaria de ler, como um escritor deve se portar quanto à abordagem da escrita, o que escrever para crianças, em que Lewis usa fatos que aconteceram com ele, livros que gostou de ler, entre outras preferências e inspirações para trabalhar o tema.
Só os dois exemplos iniciais do texto me bastariam, pois falam de adultos que acham que escrever para crianças é algo que não tem encanto, como se o público infantil quisesse a mesma coisa linear de sempre, sem inovações, dando para perceber a motivação inexistente no autor para continuar, mas por causas "superiores" ($?) ele continua. Porém, não parei por aí. Lewis também falou do facínio pela fantasia e comentou sobre obras clássicas da literatura mundial e suas influência na sociedade da época, que me soou muito atual também, mas o que me chamou MESMO a atenção foi a definição de "crescimento" e o emprego dela ao longo de todo o ensaio, mostrando que a verdade dele era a literatura infantil, a fantasia. Geralmente se vê por aí "adultos" que falam incessantemente de maturidade, prudência e experiência, têm resistência aos contos de fadas e quase não deixam rastros da infância que um dia governou aquele corpo. Sobre isso penso como o autor: o desenvolvimento de um indivíduo não tem relação com a mudança, perda ou troca de uma atitude por outra, de um gosto por outro, mas com a junção deles, que resulta em enriquecimento. Enfatizo também o que ele fala sobre moral. As crianças já têm as maravilhosas Fábulas do Esopo, cheias de princípios e muitas outras por aí, que são eternas, contudo, quem escreve deve expressar as próprias considerações sobre os assuntos tratados, sem se preocupar em dar a elas um sentido educativo forçoso, pois existe a moral de acordo com a autenticidade do autor. Por fim, tenho a certeza de que não consegui escrever tudo o que queria, mas espero ter transmitido a paixão daquilo que me "assola" a vida, no sentido mais extraordinário e prazeroso possível, que consiste nas delícias da infância, nas crianças e tudo o que elas trazem de bom, mesmo eu tendo me baseado em outra pessoa, este autor que sempre soube como emocionar gerações, para firmar meu pensamento.
Acho indispensável este trecho final do ensaio, que fecha com chave de ouro as análises da escrita para crianças sem ser forçado ou imaturo:

"Certa vez, num refeitório de hotel, eu disse em voz um pouco alta demais: "Odeio ameixas secas." De outra mesa, inesperadamente, ouvi a voz de um menino de seis anos: "Eu também." A simpatia entre nós foi instantânea. Nem eu nem ele achamos aquilo engraçado. Ambos sabíamos que as ameixas secas são ruins demais para serem engraçadas. É esse o encontro adequado entre o homem e a criança como personalidades independentes. Quanto às relações muito mais elevadas e mais difíceis entre uma criança e seus pais ou entre crianças e professores, nada digo. Um escritor, um mero escritor, está fora disso. Não é nem mesmo um tio. É um homem livre, um igual, um par, como o carteiro, o açougueiro e o cachorro do vizinho."
[Três maneiras de escrever para crianças - C. S. Lewis]