13/07/2014

Rush, Mark Twain e o Dia do Rock

Você provavelmente já ouviu a "música do MacGyver", Tom Sawyer. Ela é uma das mais conhecidas da banda Rush pelo público em geral, mas não tem apenas a participação na abertura brasileira do seriado "Profissão: Perigo" como feito notável. Além do sucesso da composição em si ao ser lançada (e até hoje), a letra é inspirada em um dos personagens mais importantes da literatura norte americana.

O menino travesso que dá título à música é protagonista em 3 livros do autor Mark Twain, são eles: As Aventuras de Tom Sawyer, As Viagens de Tom Sawyer e Tom Sawyer Detetive, todos livros "infantis". O escolhido para esta postagem foi o primeiro a ser publicado, As Aventuras de Tom Sawyer.

Criado pela tia Polly, Tom é órfão e vive com a tia e seu irmão de criação em uma aldeia de São Petersburgo. O livro relata a fase de transição de sua infância para a pré-adolescência, quando ele se descobre apaixonado, mas ainda tem dentes de leite a trocar, e tem independência para ir ou não à escola, mas fica de castigo caso não vá. Ele e seu amigo Huckleberry Finn, um menino que não frequenta a escola e acorda à hora que quiser, consentiram em testar um tipo de cerimônia para "secar" verrugas, que demandava: estar no cemitério à meia noite, e ter um gato morto. Antes que eles iniciassem o processo, pessoas se aproximaram da sepultura em que eles estavam e os dois meninos presenciaram um assassinato. Magoados com o progresso dos fatos, eles se sentiram obrigados a tomar difíceis decisões e partir para uma viagem sem um destino muito específico, apenas fugir, juntamente com um terceiro amigo, Joe Harper, que teve uma discussão com a mãe por ela achar, injustamente, que ele havia comido um certo creme que ele nem chegou a provar.

Por se tratar de um cenário interiorano, a linguagem empregada é simples, sem muito refinamento, e usam-se a palavras escritas do mesmo jeito em que são faladas, como "siora" (senhora), "trabaio" (trabalho), "corage" (coragem), para conceituar certos personagens que são servos, e toda a situação recém saída da escravidão, que negava a permissão aos escravos de estudar, entre outros.

O narrador utiliza, por vezes, o direcionamento ao leitor, incluindo-o nas argumentações e fazendo-o refletir sobre determinado assunto, relembrando-o de circunstâncias que também já possam lhe ter ocorrido. As trivialidades do dia-a-dia dos meninos são tratadas como muito importantes, sim senhor, e os dramas de um menino que não entra em uma aventura em pleno sábado ensolarado são tão sérios quanto os dramas sofridos pelos adultos. Mark Twain eleva a criança a uma situação de maior importância, não apenas aquela que deve somente respeitar os mais velhos e só se apresentar quando solicitada.

Tom tem um espírito livre, faz o que gosta, e não aproveitar o dia é algo desagradável a ele, que adora fazer "barganhas" com os itens de luxo que leva no bolso (tampas de garrafas, estilhaços de vidro, pedaços de giz, cabos de faca - sem faca -, etc.), trapacear seus amigos com esperteza, inventar todo tipo de brincadeira com o que tem à mão, mas dificilmente trapaceia sua tia. A sociedade quer que ele seja um "bom" menino, comportado, que vai à igreja, que gosta de se lavar, que não falta à aula para nadar no rio, mas não compreende que as suas reais qualidades residem no que ele faz com toda essa energia.

Uma passagem (dentre várias) do texto chama a atenção, em que Tom está treinando um assobio novo que aprendeu com um amigo:

"Com bastante diligência e muita atenção, Tom logo pegou o jeito e seguiu caminhando rua abaixo, com a boca cheia de harmonia e a alma cheia de gratidão. Sentia-se bem do jeito que um astrônomo que acabou de descobrir um planeta novo sente. E se pensarmos simplesmente em um prazer forte, profundo e completo, a vantagem estava com o menino, e não com o astrônomo."

O álbum que contém a música Tom Sawyer é o "Moving Pictures", de 1981, que a tem como música de abertura. O que foge aos padrões na letra desta faixa é que a banda não só descreve as características de Tom, como o recria aos padrões atuais, tomando-o por um guerreiro - a modern-day warrior - que conduz o seu destino.

A estrofe seguinte mostra como é a visão de Tom sobre as coisas: 

"The world is, the world is
Love and life are deep
Maybe as his skies are wide"

"O mundo é, o mundo é
Amor e vida são profundos
 Talvez como seus céus são largos"


Três versos explicam porque o menino se sente desconfortável quando é "enclausurado" e tem prazer em experimentar tudo o que há embaixo deste céu.
Abaixo, é possível compreender, mesmo sem ter lido a obra de Twain, como é a personalidade de Tom:

"No, his mind is not for rent
To any god or government
Always hopeful, yet discontent
He knows changes aren't permanent"

"Não, sua mente não está à venda
Para nenhum deus ou governo
Sempre esperançoso, ainda que descontente
Ele sabe que mudanças não são permanentes"

Musicalmente falando, o Rock Progressivo é unânime quanto à qualidade. As melodias são complexas, as faixas tendem a ser longas, o uso de teclado é praticamente imperativo... E Rush, um ótimo exemplo tanto do Rock em geral, como do Progressivo, aparece no blog com sua impecável e agradável contribuição que une música e literatura, lembrando a todos porque o nosso estilo nunca morrerá e porque o escolhemos como nosso.

Este livro é da Biblioteca Municipal da cidade onde moro. Está um pouco velhinho, mas é uma edição bonita, em capa dura, da editora Círculo do Livro, já com atividades encerradas.