18/08/2013

A Trégua - Mario Benedetti




A Trégua é uma das obras mais importantes e reconhecidas de Mario Benedetti, que obteve projeção internacional com ela. Trata-se dos relatos de Martín Santomé em seu diário que iniciam-se a partir de uma segunda-feira, na qual faltam seis meses e vinte e oito dias para sua aposentadoria.

Santomé é um homem prestes a completar 50 anos, foi casado com Isabel, que faleceu jovem, e deixou para o marido 3 filhos para cuidar e uma vida (não diria amarga, mas) pouco feliz pela frente. Trabalha no escritório de uma firma comercial realizando tarefas burocráticas e seu maior orgulho é sua caligrafia, a qual ele próprio se permite inovar (como acontece ao desenhar, delinear, elaborar, as letras "b" e "M"). Em meio a isso, ele conhece Avellaneda.

Nas considerações em seu diário, Martín expressa pouca perspectiva, sua escrita manifesta-se a partir da ironia e da sensatez, que beira o pessimismo, sem faltar-lhe elegância dos anos 50. Varia de reflexões profundas sobre sua visão da vida à situações cotidianas. Algumas vezes esta transição ocorre em um mesmo parágrafo.

É possível observar o efeito dos anos de rotina de trabalho rotineiro ao longo do livro, como a mania de catalogação: das pintas no braço de Avellaneda; das mulheres bonitas transeuntes da cafeteria...

Uma passagem extremamente comovente é a de um domingo do mês de abril. Diante da ociosidade do dia de descanso, Santomé pergunta-se "Que fiz da minha vida?" e revela suas próprias teorias sobre o tema, afirmando que o destino de sua vida, talvez, tenha sido ruim pela perda da mulher, mas bom, pelo período agradável que passou junto a ela que não foi apagado pelo desgaste do tempo: é uma experiência presa há mais de 20 anos atrás, tão boa e tão intensa que, se tivesse continuado, haveria tempo excessivo e o vínculo entre eles esmoreceria. O narrador volta ainda mais no tempo e avalia o que pensava sobre si mesmo aos 16, 20 anos, em que tinha uma opinião vigorosa e certa sobre si, juntamente com a vontade de ser útil e fazer algo grande, típico da juventude. Contudo aos 50 anos, parte da vida havia passado e a justificativa para o ritmo de vida, o trabalho, as circunstâncias do presente era a postergação. A consciência de que ele sabe-se superior a tudo isso mas tem como vício o adiamento o deixa frustrado.

Quanto à religiosidade, o personagem principal mostra-se desacreditado e desconfortável com o sentido da crença. Contesta a veracidade de a fé possuir apenas caráter abstrato e questiona a abrangência da representação de Deus diante dos indícios de sua existência, os quais Martín considera poucos.

Voltando à sua família, ele e seus filhos tem um relacionamento pouco sereno. Blanca é a mais tolerante, Esteban e Jaime são exaltados e o efeito disso é visto em inúmeras discussões, pouco diálogo e resistência a comportamentos afetuosos. Contudo há preocupação mútua eles, um se importa com o outro.

Vida é associada ao Prazer segundo Santomé, daí o apego à ela, o receio da passagem do tempo. Ele diz também que o "acordo" tratado com a vida é que tudo será feito com calma, pois haverá oportunidade para rever, desfazer, refazer... Mas aos 50 anos, quanto tempo ainda se tem para viver a vitalidade? Tal debate interior seria normal em um homem na posição do personagem, mas com a chegada de Avellaneda, a inquietação é acentuada, já que ela é vários anos mais nova. São despertados então sentimentos não vividos até aquela idade, o romance com a mulher se torna vital, mas sem o desassossego das relações da juventude. Uma das anotações no diário prova tamanha ternura e felicidade proporcionada ao homem:

 "De repente, tive consciência de que esse momento, de que esse pedaço de cotidianidade, era o grau máximo do bem-estar, era a Felicidade. Nunca havia sido tão plenamente feliz como nesse momento, mas tinha a sensação dilacerante de que nunca mais voltaria a sê-lo, ao menos nesse grau, com essa intensidade."


Alguns acontecimentos podem divergir com a situação atual ou com a opinião pessoal de quem lê esta obra. Um exemplo: atualmente, mais de 50 anos após a publicação de A Trégua, pessoas geralmente aposentam-se 10, 20 anos mais tarde que o personagem aqui citado e passam por estas aflições da mente de forma diferente dos anos 1950, já que a consciência e os conceitos da sociedade quanto ao envelhecimento evoluíram, assim como a tecnologia, as opções para quem chega a esta idade, entre outros. Outra divergência é a religiosa, pois quem segue determinada crença pode não gostar da abordagem, entretanto, este não é o foco do livro. Além disso, é necessária a compreensão da situação apresentada e das características do personagem para que a leitura transcorra sem a interferência pessoal, mas isso não é só neste livro.

Por fim, A Trégua é um livro maravilhoso, triste em alguns momentos, mas recomendado a todas as pessoas que apreciam refletir sobre a vida, as relações amorosas, familiares... Cada abordagem realizada neste livro é alvo de profunda reflexão.

Minha edição:
Editora L&PM Pocket
Edição de 2011
160 páginas