27/01/2014

Dragão Vermelho - Thomas Harris

"O Dr. Hannibal estava adormecido na cama, com a cabeça apoiada num travesseiro contra a parede. Sobre seu peito, Le Grand Dictionnaire de Cuisine, de Alexandre Dumas.
Graham não havia olhado pelas barras mais de cinco segundos quando Lecter abriu os olhos e disse:
- É a mesma horrível loção de barba que você usava no tribunal."





Em 2013, o canal de televisão NBC transmitiu a primeira temporada da série Hannibal, que revive as histórias do vilão Hannibal Lecter, médico psiquiatra, (representado pelo fantástico Mads Mikkelsen) e Will Graham, agente do FBI (Hugh Dancy).

O filme, com Anthony Hopkins e Edward Norton, e a série citada são altamente recomendáveis e ambos foram baseados no livro Dragão Vermelho do autor Thomas Harris. O livro possui em sua trama tanto suspense quanto o terror psicológico afiados. Trata-se do seguinte: Will Graham, enquanto agente do FBI, realizou a prisão de Hannibal Lecter, o médico canibal. As consequências desta operação o encorajaram a mudar sua profissão e a mudar-se com a família para a Flórida. Alguns anos se passaram e o FBI se depara com um novo assassino em série que matou duas famílias de maneira peculiar: o criminoso enfileirou os integrantes da família, colocou vidro nos olhos de cada um e mordeu as mulheres, como se estivesse em um ritual em que os espelhos o refletiam fazendo algo. Jack Crawford, chefe de departamento do FBI e ex-colega de trabalho de Graham, procura o ex-agente para auxiliar na busca pelo Fada do Dente, apelido utilizado devido à mordida pouco usual encontrada nas mulheres vítimas. O que une a figura de Hannibal Lecter com este enredo? Graham pede ajuda a Hannibal.

Ao longo da história não há nenhuma grande façanha linguística, tampouco dificuldades para entendimento, o bom e correto português já basta para contar esta ficção. O que vale o comentário sobre o livro, além da boa história, é a personalidade dos personagens principais, pois cada um possui características claras de sofrimento ou perturbação mental.

Will Graham, por exemplo, mostra dificuldades em separar as cenas terríveis que viu, durante seu trabalho no FBI, da vida real, não como uma alucinação, mas como uma imaginação fértil que choca. Suas associações acontecem quase inconscientemente e ele não vê um modo de impedi-las ou revertê-las. Em alguns momentos, estas associações beiram o delírio. Igualmente aterrorizante para Will, durante suas ponderações o agente imagina como o assassino pode ter cometido o crime e pensa como se o próprio Will fosse o assassino.

A definição de Hannibal que Dragão Vermelho traz mostra uma visão geral dos atos e da natureza do canibal. A princípio, ele revela sinais de sadismo e não sente remorso, os quais indicam sociopatia. E para por aí: Lecter é chamado sociopata, mas não apresenta nenhum outro sinal da doença, não é pervertido, não é aproveitador, é sensível e detalhista. Em uma de suas atrocidades, sua pulsação (pulso) antes do ato contabilizaram 72 batimentos por minuto; após o delito, eram 85 bpm, ou seja, seu crime foi indiferente à sua mente impenetrável e ao seu corpo. Salientando sua inteligência, enquanto preso, Hannibal nunca parou se escrever artigos científicos para periódicos e, além disso, sua capacidade de observação e esperteza são proporcionais ao seu sarcasmo.


A narração de Dragão Vermelho é em 3ª pessoa e é mais ousada quando encontra Lecter para discorrer sobre. A sinestesia é recorrente, se encaixa perfeitamente com o tom do doutor. Com o Fada do Dente, esse tom fica mais pesado e "escuro". Seu nome é revelado no livro e sua vida também é contada. Nesta fase da narrativa, são mostrados traumas, crueldades, violência, loucura, sem precedentes ou delicadezas.

Fada do Dente é um homem inegavelmente traumatizado, sofre de delírios e alucinações, é pouco comunicativo, se excita com a violência, apresenta paranoias e obsessões. Alan Bloom, psiquiatra do FBI, disseca as facetas do "Fada", chamando-o com compaixão de "filho de um pesadelo" e mostrando suas tendências. A infância do assassino também é relatada e a autenticidade do trecho destinado à ele o torna um homicida mais humanizado, diferentemente de Hannibal, o cannibal.

Há uma relação forte e clara entre o título e a pintura de William Blake, denominada O Grande Dragão Vermelho e a Mulher Vestida Com o Sol, citada várias vezes. A pintura é esta:



Há uma outra com nome parecido: O Grande Dragão Vermelho e a Mulher Vestida no Sol. Esta e outras fazem parte de uma série pintada por Blake para reproduzir o apocalipse contido no livro das Revelações, da Bíblia. Extraordinariamente, o pintor o fez atribuindo caráter demoníaco e sexual à imagem sem igual. A aquarela está exposta no Brooklyn Museum.

Outra  referência contida é a do "Homem Ferido":



O "Homem Ferido" se aproxima à figura acima e mostra os possíveis ferimentos de batalha que um homem poderia apresentar. A imagem constou em livros medievais de medicina e as obras também apresentam os tratamentos para cada lesão.

Filme e Livro são mídias diferentes, ou melhor, são artes diferentes, o que impulsiona a procurar por todas elas, aqui, é a história bem contada. Recomendadas também são as histórias dos livros que seguem a trilogia: O Silêncio dos Inocentes e Hannibal. A foto no início da postagem é do livro em uma edição (de bolso, mas caprichada) da Bestbolso pela Editora Record.

*As imagens da pintura de William Blake e do "Homem Ferido" foram buscadas no Google.