20/05/2014

Suicidas - Raphael Montes


Suicidas, de Raphael Montes, foi um dos livros finalistas do 1º prêmio Benvirá de Literatura. Condizente com a grandiosidade do feito, este livro foi o primeiro romance a ser escrito pelo autor.

Como o nome sugere, é um romance policial que trata de um episódio de suicídio, mas não apenas isso: um grupo de 9 jovens participaram de uma roleta-russa em um porão da casa de passeio de um dos integrantes do grupo - Zak. O grupo é composto: pelo próprio Zak, Alessandro, que recebe maior destaque na história, Ritinha, Danilo (um rapaz com síndrome de Down), os irmãos Maria João e Lucas, Otto, Waléria e Noel. Um ano após as mortes, a polícia ainda encontra mistérios envolvendo o caso e reúne as mães dos jovens para possíveis esclarecimentos e para a leitura de uma prova crucial até então não apresentada à população.

Para alguns participantes, os motivos de um suposto suicídio são evidentes, entretanto para outros o ato não se enquadra como uma conduta viável e o estado em que alguns corpos foram encontrados também é misterioso. A ideia parte não se sabe de onde, mas inicia-se após a morte dos pais de Zak devido a um trágico acidente de carro.

O roteiro é entrelaçado, muito fluido e cada assunto, a princípio dispensável, torna-se essencial para a análise das respostas ainda não alcançadas. A abordagem compreende e intercala capítulos narrados em terceira pessoa: as anotações de Alessandro em um caderno encontradas em sua própria casa e o livro escrito também por Alessandro que relata, em tempo real, tudo o que acontece durante a roleta-russa. Também inseridos, há capítulos que registram os áudios da reunião das mães com a chefia de polícia. 

Os relatos dos cadernos são apresentados de acordo com o episódio que ocorrerá no capítulo seguinte do livro de Alessandro, ou seja, o caderno complementa ou explica algum capítulo do livro, este sim seguindo a ordem cronológica dos acontecimentos. 

À medida que o livro vai tomando proporções, descobrem-se sentimentos dos jovens, como suas visões a respeito dos incidentes da vida, a morte, as inclinações ao capitalismo, trivialidades e violência consoante com o suicídio, aliadas ou não a doses de álcool e drogas. O desejo de Alessandro de se tornar um escritor famoso é notório, o autor chega a utilizar-se da metalinguagem para evidenciá-lo (um livro sobre um autor escrevendo um livro).

Outras figuras de linguagem são empregadas mesmo se tratando de um enredo mais violento, além de a história ser bem estruturada - os fatos, a forma de contá-los - e os comentários inseridos aos diálogos são pertinentes. Cada morte é narrada dando sensação de suspense à circunstância e aos eventos subsequentes. 

Uma queixa (ou manifesto) relevante abordado é o presente modo de vida. Em uma passagem específica e muito marcante, revela-se a preferência do personagem principal pelos modos antigos de vida, sem a internet, sem a falta de privacidade dos dias atuais e, após esta divagação, o personagem principal é induzido à descoberta de sites de suicídio que persuadem pessoas em situações de fragilidade, incluindo crianças, ou pior, encorajam a pedofilia, etc. Algo necessário de se abordar, ao passo que revoltante e certamente custoso. 

Vários pontos positivos podem ser encontrados frente à violência e ao enredo pesado, o que tornam Suicidas, sem dúvidas, um bom entretenimento e ótimo representante da nova geração da literatura brasileira.


"Há algo de interessante na relação entre catástrofe e notícia. Quero dizer, quando um avião cai e morrem duzentas pessoas, misteriosamente, milhares de quedas de avião ao redor do mundo são noticiadas na semana seguinte. O mesmo acontece com crianças violentadas, balas perdidas e tufões que derrubam as casas dos norte-americanos. Depois, tudo se amorna. O assunto passa a ser outro, a queda de um avião em um lugar distante nem é mais tão chocante assim. Tudo é normal. Rotineiro."