24/08/2015

Para onde vai o amor?, Carpinejar


A leitura de uma coletânea de textos (contos, poesias, etc), para mim, geralmente é mais demorada. Pelo fato de cada texto ser dotado de teor diferente, ao acabar um, eu fico com ele na cabeça, assimilando, e só consigo ler o próximo texto após um tempo. Romances por exemplo, que seguem um raciocínio, ou ao menos tendem a um ponto em comum mais explícito e visível, apresentam uma leitura rápida e fluída (característica inerente a esses textos).

Com as crônicas em especial, faço uma degustação sem esperar que a fome seja saciada, mas experimento cada nova prova tentando desvendar os ingredientes com cuidado, para perder o mínimo possível. Nestas coletâneas, as facetas do autor podem ser (e são) modificáveis, com mais variações.

Há alguns anos, tive contato com o trabalho de Fabrício Carpinejar, após assistir a uma entrevista dele para a televisão. Extremamente carismático, também assisti a sua participação na FLIP juntamente com Jackie Kay, em 2012, e lembro-me de ter visto a plateia emocionada com poemas recitados pelo autor.

A obra de Carpinejar é bem difundida na internet e já houve quem dissesse que esta difusão é pelo fato de seu tipo de escrita "estar na moda", em vez de ocorrer pela sua qualidade. A realidade está longe disso. Com mais de 20 livros publicados, o lançamento de 2015 de Carpinejar veio em formato de crônicas com 58 textos sobre o título.

As crônicas conceituais de "Para onde vai o amor?" tem forte caráter poético e podem facilmente ser comparadas a poemas. Polissíndeto e tantas outras figuras de linguagem são muito utilizadas, entretanto a mais recorrente é a Anáfora. Ocorre praticamente (senão) em todos os textos, e mesmo com esta repetição, notei a obra ao mesmo tempo verdadeira, suave e intensa. Não é regra, entretanto encontrei verbos no imperativo, seguindo a fórmula "faça isso, não faça aquilo", e pude observar, ocasionalmente, o uso da linguagem informal, ignorando conjugação e regência verbais para se aproximar ao tema (à entonação angustiada, talvez) e ao leitor.

Os textos são curtos, cada um tem aproximadamente 3 páginas. Carpinejar não aborda neles somente o amor agudo, característico do início de namoro, abrange também outras situações, como quando se acostuma à convivência a dois, quando passa o tempo e parece que o amor morre... Então ele mostra que não morre. Pode parecer clichê, mas é tocante, e também mostra as variáveis do amor, quando há obsessão, desgaste, etc.

Há uma linha de raciocínio que segue: o início do amor, a duração, a dúvida, o término e a reconciliação, mas esta demarcação não é explícita. O tema pode parecer antiquado, mas o estilo do autor é leve e atual, o que torna a leitura agradável e contextualiza termos e situações do presente, como redes sociais, aplicativos de celular. Esta "cadência" dos temas deixa a leitura organizada, e nos remete ao Romance (gênero), tendo como ponto de partida a conexão entre as ideias propostas em cada texto.

"Para onde vai o amor?" expressa muito bem os sentimentos envolvidos em cada fase do relacionamento amoroso. Mesmo quem não vivenciou alguma delas pode reconhecê-las e sentir-se parte da situação, tamanha dimensão que o autor reproduz.