04/12/2016

Carteiro Imaterial - Marco Lucchesi

"Nesses últimos anos houve uma devastadora epidemia de vampiros, que assolou nosso mercado editorial. Monstros aparentados com Drácula ou com a brigada de diabos dantescos, sob os raios canônicos da lua, com seus caninos não menos clássicos e afiados. Podemos tomar tranquilamente um bom café na companhia do conde romeno e suas variedades: um sem-número de figuras, todas ligadas a Drácula e ao vistoso príncipe do mal."

Quando li a sinopse de Carteiro Imaterial, de Marco Lucchesi, e comecei a ler, achei que fosse semelhante a Uns Brasileiros, de Mario Prata, porém, este se dedica exclusivamente a entrevistas fictícias com personalidades diversas, enquanto Lucchesi pode se direcionar a alguém em especial, simulando o envio de uma carta, ou a algum leitor (de preferência, o ideal) que se depare com seus escritos.

A publicação contém ensaios acerca de vários temas, como o idioma, as traduções, fundamentalismo religioso, em meio a indicações de livros, discussões metafísicas, o manejo das letras, das artes e seus legados. Os ensaios são divididos em seções: Carteiro Imaterial, Poetas Romenos, Rastreamento, Maltraçadas Linhas, Posta-restante, Caixa-postal e Endereço Desconhecido.

Sobre o leitor ideal, ao iniciar o livro, pode-se ler o "Aviso de entrega". Carteiro Imaterial é uma obra de alto teor intelectual e, talvez por isso, nessa parte, há o aviso do leitor idealizado. O autor compreende que é necessário estar aberto aos ensaios para uma leitura imersiva. Ao meu ver, para que o leitor adentre às palavras de Lucchesi, é essencial um conhecimento prévio sobre literatura, história mundial e brasileira, mas, caso não haja (como experiência própria), uma busca rápida sobre o desconhecido é sugerida.

Um dos meus textos favoritos da edição é o "Kerido Evanildo Bechara". O escritor brinca com as palavras e apresenta uma carta ao referido gramático. O resultado é um texto divertidíssimo e, como o próprio autor classifica, selvagem. Não há acentos, ou regras para consoantes com mesma fonética, dígrafos, hífen, etc. Outros que se destacaram durante a leitura foram "Mincu: diário de Drácula", em que discorre sobre a ascenção dos vampiros literários e faz a sugestão do livro que o título traz; e "Fausto no Brasil", que compara o papel do tradutor a Mefistófeles, incluindo partituras musicais e citações do próprio Goethe para apoiar suas teorias.

Lucchesi propõe um texto com linguagem muito rica, o que torna a experiência diferenciada. O autor, além de escritor, também é tradutor, professor, membro da Academia Brasileira de Letras e detentor de vários prêmios, incluindo o Jabuti.

O lançamento da José Olympio é um desafio e um deleite para os que gostam de opiniões bem formadas e embasadas. Visualmente, é um belo livro, com uma bela diagramação. Todavia, o conteúdo apresentados por Marco é o que mais se destaca, e torna essa uma das melhores reuniões de ensaios de 2016.

"E se a presença eslava empresta ricos matizes aos substratos da língua romena, permitindo-lhe saídas semânticas delicadas de que se beneficiam os poetas, assim também a língua portuguesa realiza um diálogo permanente com a herança árabe, de que destaco, entre outros, os artigos ligados aos substantivos que nos permitem dizer ruído ou arruído, corão ou alcorão."