09/11/2016

Doadores de Sono - Karen Russell

Em Doadores de Sono, a mais nova epidemia constatada nos EUA é a insônia.  O livro é ambientado alguns anos após os primeiros casos da doença, quando já existem "bancos de sono" e doadores (como o título indica). Trish é uma das profissionais do Corpo do Sono, instituição liderada pelos irmãos Storch que coleta sono límpido e transfere aos insones (também chamados de orexinas). O trabalho da moça é atrair novos doadores e mostrar que o processo é seguro e, para isso, ela usa história da morte da irmã para alcançar a sensibilidade da população (sem aparente charlatanismo). Duas importantes peças do enredo são: a Bebê A, que possui padrão de sono REM tão límpido, que é considerada doadora universal, juntamente com o dilema dos pais em ofertar ou não os sonhos de uma criança tão pequena; e o Doador Q, doador anônimo portador de um terrível pesadelo que incita os receptores a não dormirem mais.



  • Características narrativas
A primeira metade do livro é  substancialmente descritiva/informativa. Não sabemos nada sobre a nova doença, dessa forma, a autora apresenta as variáveis, os dados estatísticos e tudo o que Trish sabe sobre o tema, incluindo sua experiência com a falecida irmã.
  • Similaridade à uma epidemia
A história é inovadora por relacionar a perda da capacidade de dormir a uma epidemia. Por vezes, lembramos de casos verídicos de doenças infectocontagiosas. Fãs do filme Contágio (Contagion, 2011) certamente irão gostar dessa ficção.
  • Características do sono
Karen utiliza referências autênticas (e científicas) sobre  o sono, como a diferença entre sono profundo (REM) e sono leve (não REM), mesclando-as com suas próprias para se adequar à obra. Quanto à epidemia, Karen usa termos epidemiológicos recorrentes da área.
  • Submundo da Insônia
Como toda epidemia não contida, há a comercialização do bem-estar e a alta do mercado negro, como venda de substâncias clandestinas para induzir o sono. Há um ambiente específico para isso, uma espécie de submundo, em que a autora usa toques da psicodelia para descrevê-lo.
  • Manipulação do terror
Nem todas as informações são divulgadas, a fim de evitar o pânico generalizado. Em contrapartida, quando notícias "vazam", determinados setores induzem a população ao temor por situações específicas, e Karen Russell demonstra bem isso.
  • O estilo de Karen Russell
Karen escreve em primeira pessoa sobre uma situação futurista, que oferece questionamento ao leitor (e se acontecer?). Por vezes o drama inserido soa mecânico, mas sua ideia é concreta, ao passo que, para desenvolvê-la, a escritora é delicada, tem a abordagem dócil ao apontar o problema exposto.

  • Referências
Doadores de Sono é um livro curto, porém, cheio de referências. Não apenas aos termos usados na saúde, mas aos clássicos da ficção científica (A família da Bebê A, por exemplo, sustenta o sobrenome Harkonnen - Duna), dentre várias referências.