15/03/2013

Ensaio Sobre a Lucidez - José Saramago

"Passaram os dias, as dificuldades iam em crescendo contínuo, agravavam-se e multplicavam-se, brotavam debaixo dos pés como tortulhos depois da chuva, mas a firmeza moral da população não parecia inclinada a rebaixar-se nem a renunciar àquilo que havia considerado justo e expressara no voto, o simples direito a não seguir nenhuma opinião consensualmente estabelecida."



Se o conteúdo moral deste livro levará alguém a algum lugar, certamente será à ruína.

Na capital de um país que não é Portugal, pois sua população cumpre com seus deveres eleitorais, mas que poderia servir-nos como exemplo (como o próprio Saramago escreveu), em um dia de eleição com péssimo tempo, algo curioso aconteceu. Devido à chuva, com possíveis alagamentos e enxurradas, os votantes demoraram-se a sair de casa rumo à assembleia eleitoral e quando saíram, já tardavam 4h da tarde. A partir de então, as filas se formavam e dobraram esquinas e os integrantes das sessões anteviam o sucesso de mais uma eleição. Mas isto não aconteceu: a desconcertante opção de mais de 70% porcento da população foi votar em branco.

Nas outras cidades as eleições, que eram municipais, ocorreram de forma normal, sem sobressaltos, apenas na capital, a referência da consciência política nacional, ocorreu este impasse que teve como saída a repetição das eleições em 8 dias.

Chegado este dia, o governo se dispôs gentilmente a servir-se de empregados (munidos de aparelhos de escuta e técnicas de espionagem) infiltrados nas filas das sessões eleitorais para descobrir os mentores do trágico resultado anterior, pois isto não poderia ter acontecido sem o planejamento de alguma máfia ou organização, nacional ou internacional. Após a nova apuração dos votos, verificou-se que 83% da população havia votado em branco.

O desespero do chefe de governo, dos ministros, do Partido de Direita (pdd) e de todos que se opunham ao protesto do voto em branco foi manifestado em forma de repreensão. Os "suspeitos" de organizarem tal protesto foram levados para interrogatório e de alguns não teve-se mais notícia; o primeiro-ministro, vendo a capital como uma possível alastradora da rebeldia generalizada, decretou estado de exceção (no qual são suspendidos direitos e garantias constitucionais).

Muita pressão sobre a população e ausência de atitudes enérgicas por parte dela. Um atentado em um metrô aconteceu e a situação que se seguiu foi que todos os que votaram em branco, indignados, fizeram uma manifestação pacífica mostrando-se, usando camisas, pendurando bandeiras em que dizia-se que aquela casa ou aquela pessoa usufruiu de seu direito de não escolher nenhum candidato.

Viu-se a deserção dos políticos desesperados para outra cidade (que seria a nova capital do país), foi decretado o Estado de Sítio e o governo continuou sua busca para encontrar algo que pudesse satisfazer o sentimento de conspiração que assolava-o.

A partir deste enredo, José Saramago disseca o caos que seria instalado em um local em que maioria das pessoas tivesse sido acometida por um surto de lucidez, porém não todas (não os governantes); Saramago também faz reflexões acerca da moralidade, do uso (ou abuso) do poder, da ilegalidade ao conflitar com a honestidade, das consequências e perigos da insatisfação política, das "prioridades" políticas insignificantes, dos rumos da consciência perante às "prioridades", e muitas outras. Também são abordados os meios de manipulação e como criar um segundo rumo para um fato aparentemente inofensivo, como quando o Primeiro-ministro abusa do drama para pedir aos eleitores que reflitam sobre o "mau" voto (ou a afronta), culpando-os pelas medidas extremas adotadas e pedindo que não repitam este erro para com a pátria novamente.
O desenvolvimento dos eventos é o principal aqui, sendo conduzido por diálogos e reações do governo em sua maior parte. Personagens isolados (que são nomeados de acordo com seus cargos ou atuação na história) e suas características tem importância, mas secundária, pois o foco é mostrar a desesperança contida nas ações de autoridades corrompidas, ou seja, não há individualismo a ser relatado, é bem mais abrangente que isso.

Este livro faz referências ao Ensaio Sobre a Cegueira, também de Saramago e, acredito eu, mesmo quem não tenha lido consegue entender a sequência dos fatos (eu mesma não o li, apenas assisti ao filme, de Fernando Meirelles). 4 anos antes de o Ensaio Sobre a Lucidez, todos foram acometidos por uma "cegueira branca" repentina, menos uma mulher. Esta cegueira branca é, posteriormente, relacionada aos fenômenos do voto em branco e das situações apocalíptica criadas pelo Homem ante a falta de organização, coletividade e discernimento para lidar com dificuldades.

Novamente, é um livro que desperta desesperança (este termo, muito bem empregado, eu li em algum comentário mas não lembro-me qual ou onde), porém está entre as narrativas mais bem construídas de que se tem notícia e possui uma abordagem tão sutil quanto cruel para um tema complexo.

A edição que tenho é da coleção Literatura Ibero-Americana, da Folha de S.Paulo e o texto foi publicado de acordo com a ortografia de Portugal.


 "Sendo o género humano aquilo que sabemos, não poderiam faltar os caprichos egoístas, as distracções fingidas, os aleivosos apelos às sentimentalidades fáceis, as manobras de enganosa sedução, mas também houve casos de admiráveis renúncias, daquelas que ainda nos permitem pensar que se perseverarmos nesses e noutros gestos de meritória abnegação, acabaremos por cumprir com acrescimentos a nossa pequena parte no projecto monumental da criação."