21/11/2015

Mundo Cão, Matheus Peleteiro

"Afinal, o mundo não é uma maravilha. O mundo é muito pior. Ele não é uma caixinha de surpresas. O mundo é ação, reação e lógica. ele não vai pegar leve na hora de reagir, afinal, não é completamente belo, devemos saber disso. O mundo é um cão raivoso prestes a lhe devorar."


O selo Talentos da Literatura Brasileira, da editora Editora Novo Século, é responsável por divulgar novos autores. Mundo Cão, lançado em 2015, compõe o catálogo do selo e é assinado pelo autor baiano Matheus Peleteiro.

A favela (fictícia) Roda Vida, está situada em Salvador e, diferentemente das favelas do Rio de Janeiro, como explica Matheus aos que não conhecem a capital baiana, não são construídas em morros ou lugares acidentados, as de lá são feitas em locais em que a erosão não permite um aproveitamento tão rico do solo, então a população constrói suas moradias nestas erosões. Roda Vida e seus arredores são palco para o personagem principal Pedro Contino contar sua história.

Jovem cheio de sonhos, ao contrário do que os jovens da localidade anseiam, Pedro repudia o tráfico de drogas, quer ser alguém na vida e deixar sua marca na literatura. Ao ser surpreendido por um tiroteio próximo à sua casa, pensa em sair da casa dos avós e ganhar sua independência. Sua história é destrinchada, alguns detalhes de sua infância e criação são expostos, mas o que o livro transmite é através dos acontecimentos após o mencionado tiroteio, narrados sempre em primeira pessoa.

O autor mostra um típico exemplo de jovem revoltado com a realidade, que se depara com dificuldades e se vê em conflito com a filosofia de vida local. Tem poucos amigos presentes, como Luís, um roqueiro que ensina muito ao rapaz, mas transparece frustração por não ter feito tanto por si mesmo. Pedro consegue trabalho em um bar e, sua vida a partir de então pode ser comparada à "Roda da Fortuna", uma carta de Tarot que representa os ciclos da vida e suas oscilações, ou ainda a deusa romana Fortuna, que representa a sorte, o acaso e a aleatoriedade, fortemente presentes no texto de Matheus.
 
São frequentes os episódios em que o rapaz procura nas mulheres a satisfação que talvez sua vida não estivesse proporcionando. Ou talvez sejam as experiências típicas de quem está se encontrando na sociedade. Quanto ao romance, ele gosta da menina mais bonita da Roda Vida, mas não se prende ao platonismo, não é romântico ao extremo.

A narrativa é objetiva, assim como a dos ídolos literários do personagem principal. O narrador dá ênfase aos eventos importantes, sem se apegar a eles, é conciso, realça o sentimento da favela, em que a situação pode mudar constantemente sem segundas chances. O livro é repleto de música (Rock nacional e Rap) e Charles Bukowski.

No texto há raiva, indignação contínua. Reflexões são provocadas permeando as aventuras de Pedro. Ele considera a postura da sociedade frente aos problemas do Brasil, da favela, até aos problemas intrínsecos, que variam com a opinião e o caráter.

 "Eles reclamam de mudanças, reclamam das coisas do jeito que estão, furam fila, passam a perna um no outro, querendo ficar de pé, sem se importar se o outro vai cair..."
O primeiro romance de Matheus Peleteiro não tem uma história feliz. O autor apresenta a visão de um jovem tentando sair a qualquer custo dos domínios da favela, e dá ao livro a sua visão, que também pode ser traduzida como a visão de muitas pessoas desesperançosas quanto à convivência humana e tudo o que está envolvido, mas o principal é a representação do quão trabalhoso pode ser afastar-se de uma cultura sólida e entranhada quanto a da favela Roda Vida em Pedro Contino.