05/01/2016

A Vida Viva, Jean-Claude Guillebaud

"(...) o que ocorrerá com os pensamentos e com as vidas que não serão imediatamente comercializáveis? Em outras palavras, restará algum lugar para o pensamento não mercantil, para a ideia não invendável, para a desatenção sonhadora, para o bem comum?"




A Vida Viva - Contra as Novas Dominações é um livro sobre Filosofia (e também Economia), abordando o século XXI. O autor argelino, jornalista e escritor, propõe uma visão do presente, investiga as dominações que atingem a sociedade, as tecnologias em expansão constante e a oferta de informações sem limite, que tem causado mudanças rápidas no modo de pensar e de viver.

Guillebaud expõe que atualmente faltam palavras para caracterizar a situação em que o mundo se encontra, como é de se esperar, já que uma época só é bem analisada retroativamente. Por esse motivo, ainda é pretendido pelos estudiosos encontrar o léxico ideal para esta fase de tantas mudanças, e o debate até agora só gera mais discussão, não leva a muitas conclusões. Ele exemplifica uma estrela morta, em que seu brilho (a palavra) não é mais emanado (dita), mas seu significado ainda ecoa, gerando os debates.

Dentre todos os aspectos que causem a manipulação na era cibernética, para Jean-Claude os mais recorrentes são as relações econômicas, que não compreendem necessariamente dinheiro, mas a evolução da ideia de compra e de propriedade que, atualmente, tem apresentado andamento lento, enquanto o espaço virtual se modifica em um piscar de olhos, as relações sociais, que para ele, tornam-se imateriais a cada dia, e a velocidade em que ocorrem (o tempo perdido é algo impagável para a geração).

Em uma passagem do texto, é possível perceber a preocupação do autor ante este progresso desenfreado:
"O tempo obrigatório é o do minuto, do segundo, até mesmo do nanossegundo. A escolha dessa lógica do luxo no lugar da do estoque consiste em privilegiar o tempo em vez do espaço. (...) O espaço se estreita à medida que o tempo se torna mais breve. (...) A temporalidade contemporânea torna-se, por isso, incrontrolável. Entramos em estado de errância, ao mesmo tempo exilados e desorientados. Passamos do sincrônico para o diacrônico. Não perdemos tempo, mas o tempo."
A internet oferece incontáveis serviços e produtos digitais gratuitos, nem sempre distribuídos legalmente. Sobre a visão de "posse", o escritor tem a teoria de que a partir do momento em que determinado item passou do real para o virtual (como músicas, filmes, imagens), ocorre uma desmaterialização deste item, ele passa a ser visualizado como algo não mais palpável, menos "real":
"A dominação do sistema, em vez de desaparecer, muda de configuração e funciona de um outro modo. O capitalismo também é uma categoria mutante."
Tal imaterialidade também pode ser observada quando uma pessoa compra um produto de determinada marca. Guillebaud usa um tênis como exemplo. A marca do artigo selecionado é rotulada pelo seu nome e fama, além de possuir um valor estabelecido no mercado, porém nem sempre a empresa que o administra é a mesma que o produz, a mão-de-obra pode ser terceirizada e a marca fica apenas com a coordenação do trabalho de outras empresas. Até aqui, tudo isso esteve intrínseco nas relações comerciais dos últimos anos, pensando em itens palpáveis. Mas nesse contexto, a nível virtual, a "propriedade" está dando lugar ao uso alocativo, segundo alguns autores de apoio de Jean-Claude.

Não só no quesito "distribuição" ou "compra e venda", mas também no que se refere às relações humanas, muita coisa tem se tornado imaterial, digital, impalpável. Ao seguir o pensamento de que o mundo está se tornando mais informatizado, é impossível não pensar em obras como o livro Admirável Mundo Novo (Aldous Huxley, 1932), citado n'A Vida Vida, em que pessoas são programadas em laboratório e os laços humanos são praticamente extintos, ou como o filme O Exterminador do Futuro (James Cameron, 1984), em que as máquinas entram em guerra com a humanidade, e tem o objetivo de exterminá-la.

Longe de estarmos nesta situação, o avanço da tecnologia e de outras esferas da evolução tem deixado contribuições negativas, e são os danos decorrentes desta evolução exacerbada e os tipos de manipulação vindos deles que Guillebaud alerta em seu livro. A leitura desta não-ficção é densa, mas traz questões importantes, analisa os rumos possíveis da sociedade e leva a pensar o que é estimado para o futuro.