04/02/2016

Ariana, Igor Gielow



"Mas lá estava o caderno. No fundo da caixa, soterrado entre tantas outras memórias, estava o objeto rosado todo desbotado, manchado de algo que parecia ser sangue e tinta borrada. No entanto, as letras escuras estavam nítidas: Ariana."

Igor Gielow apresentou, em 2015, seu primeiro romance, intitulado Ariana. O livro retrata um cenário não tão debatido na literatura brasileira (ao menos, se comparado aos cenários mais recorrentes), compreendidos por dois países: Afeganistão e Paquistão.

A nível de curiosidade, caso o leitor não possua um mapa à mão, o conglomerado "AfPak" não é um país do Oriente Médio por ser banhado pelo Mar Mediterrâneo. Estão situados a Leste do Irã e apenas o Paquistão é banhado pelo mar Arábico, porém o termo se refere aos dois países pela proximidade e consequente cultura. O livro é contado em um momento em que o Paquistão passava pelo enfraquecimento do general Pervez Musharraf e sua consequente renúncia ao mandato e o Talibã continuava enfraquecido e fora do poder no Afeganistão, mas não totalmente a salvo da ameaça dos integrantes do movimento.

Mark Zanders é um jornalista brasileiro que trabalha no Paquistão para um jornal inglês. Já no início, o clima de tensão é grande, o rapaz e seu assistente, Waqar, testemunham um atentado a um hotel. Waqar, gravemente ferido, deixa a Mark a mensagem de que é preciso encontrar "Ariana". Sem saber do que se tratava, o jornalista sai em busca de respostas sobre este nome. Ao visitar a família do assistente, o jornalista vai até o quarto do falecido amigo e encontra o diário de uma adolescente, com o nome que buscava escrito.

Os capítulos tem interpostas a busca de Ariana e tudo o que é envolto ao nome, a vida pessoal de Mark e as consequências gerais do atentado. O "presente" ocorre em 2008, porém, a fim de contar o que aconteceria dali a alguns anos na localidade, há alguns saltos para o futuro. Essa brincadeira com o tempo é bem demarcada e não faz o leitor se perder quanto aos eventos.

Mark não é um protagonista amável. O personagem é um tanto perdido, no sentido pessoal da expressão, talvez para fugir da pieguice, ele acaba sendo insensível e pode ser que a falta de certeza em sua vida pessoal o direcione a um foco maior em sua carreira profissional.

"Ao negar a morte, a finitude, gente como Mark achava forças para tocar seus projetos, mas paradoxalmente via sua subjetividade esvair-se. A consciência do fim dá foco. Mesmo o atentado e as várias situações de risco pelas quais passara não lhe tiraram completamente o torpor da segurança - só para sentir-se ameaçado em sua redoma por esse Outro poderoso e inclemente."

Possui também uma afinidade com Sir Richard Burton, personalidade britânica notória, aventureira e estudiosa, que empresta em Ariana seu sobrenome a um personagem influente com quem o brasileiro tem contato.

A história tem uma cadência decrescente, no sentido de êxito de objetivos. Do início ao final, cada evento se distorce e, longe de estar contando o desfecho, de um simples pedido de um amigo, Ariana se transforma em um enredo difícil de ser solucionado por completo, técnica de escrita usada sabiamente por Igor.

A trama é bem desenvolvida, a partir deste caderno aparentemente inocente, segredos de Estado são descobertos, vidas de pessoas são colocadas em risco, principalmente a de Mark. É uma ficção de cunho político, retrata o espaço físico dos locais em que passa e a situação política prévia (ou não) para localizar o leitor. Traz muitas referências sobre a cultura e sociedade de ambos os países, desde linguagem, comidas típicas, até temas polêmicos, como os ofícios femininos naquela área. O trecho abaixo contém um exemplo:
"O problema todo passava pela incompreemsão de um preceito básico do pashtunwali, o código de honra dos pachtos (...). Trata-se da melmastia, ou hospitalidade. Ao receber um convidado, estrangeiro ou não, perigoso ou inócuo, o chefe da casa não só deve mantê-lo pelo tempo que ele desejar como deve defendê-lo dos inimigos."
Igor Gielow elaborou um livro sério, com tom investigativo e sem os típicos romances como objeto central. A escrita é muito boa, o desenvolvimento do personagem é bem traçado, fez dele tão confuso nos assuntos pessoais quanto deveria parecer, ao passo que tão perigosamente obstinado. Gielow proporciona a imersão completa em um outro mundo. Um ótimo lançamento nacional de 2015 da editora Record.