08/05/2016

O Evangelho Segundo a Filosofia, Aurélio Schommer


A Bíblia Sagrada, publicação mais vendida do mundo, tem como seu principal livro o Evangelho, que conta sobre a vida de Jesus Cristo, tendo caráter catequizador, e é dividido em 4 partes: Evangelho segundo Mateus, Marcos, Lucas e João, sendo este último o principal, que envolve a crucificação de Jesus. 

Aurélio Schommer se baseou neste segmento do Novo Testamento para abordar filosofia ao redor da religião e a influência causada na percepção da sociedade. Como ponto de partida, para melhor diálogo, utiliza um sistema para melhor descrição da experiência da leitura, que envolve a distinção dos dados empíricos, da sensação e da ideia (ou realidade, impressão e conceito) para então iniciar a discussão. Para análise do que é concreto e abstrato e direcionar o que é divino, Schommer usa os 5 sentidos do corpo humano.

Para cada capítulo, algum pensador introdutório é tido como pilar para desenvolvimento da ideia seguida. O primeiro é o filósofo Gottfried Leibniz, que proporciona ao leitor um envolvente primeiro capítulo:
"Nunca se casou, não teve filhos, não consta ter tido amores sexualmente intencionados, recusou ofertas para ser professor, dormia pouco e comia na mesa de trabalho. Como pequeno deus que era, não podia descansar na obra contínua de criação e providência. Os afazeres rotineiros de homem pareciam-lhe uma perda de tempo."
Dividido em 10 partes, o 2º capítulo tem Hieráclito como substrato, depois, Blaise Pascal, Bernadette Sobirós, Luiz de Molina, Hannah More, Freud, Kant, Michel de Montaigne e Luciano de Samósata.

Escrito no presente, o texto é desenvolvido com outros filósofos, como Lacan, Hume, Erasmo de Roterdã, Hobbes, Locke, Santo Agostinho, dentre outros. Abordando temas do próprio Evangelho e ampliando a temas afins, Aurélio Schommer insere temas como morte no contexto atual, sexo (Lars Von Trier é citado), chegando, inclusive, à polêmica da questão da fé, pois traz a falta de fé de alguns autores.

A obra é muito bem fundamentada com eventos históricos que orientam o leitor, vincula outras vertentes do cristianismo, desconstrói conceitos, compreende o significado de moral, o que muitas vezes pode levar o leitor à discordância. A leitura, por se tratar de tema filosófico acerca da religião, pode ser mais densa, mas o autor traduz a complexidade a um inteligente e acessível e faz um bom trabalho para dissecar a filosofia envolvida no livro mais lido de todos os tempos.

"Qual verdade via Adão antes da queda? A infinitude de tudo, da matéria, do Universo. Não uma infinitude fossilizada, parada no tempo, uma realidade congelada, mas uma infinitude em devir, em vir a ser, como hoje sabemos que o Universo está em constante movimento, a matéria em transformação. Se não nos é dado constatar tal verdade é porque em oposição à verdade, à infinitude, somos finitos, estamos espremidos entre duas eternidades, a que passou e a que virá quando já não existirmos."