17/06/2016

Os Afogados e os Sobreviventes - Primo Levi


Primo Levi foi um italiano nascido em 1919, judeu, formado em química no início da década de 1940, feito prisioneiro em Auschwitz, de 1944 a 1945, e sobrevivente de um dos maiores episódios de terror da história da humanidade. Seu último livro publicado, Os Afogados e os Sobreviventes, faz um panorama, anos após sua soltura do campo de concentração nazista, sobre os eventos lá presenciados.

Que a esperança e a dignidade humana foram deixadas para trás naquela época sombria, não é novidade, porém, os relatos de Primo Levi são chocantes e mostram os vários lados (todos sombrios) das figuras envolvidas; também conta desde situações singulares até os mecanismos internos dos Lager (campos de concentração). Vale ressaltar que Auschwitz não foi um campo de concentração com localidade única, como pode parecer, mas sim uma rede com vários núcleos ao redor da Polônia, responsáveis por tarefas delineadas, sendo o campo de extermínio o local de permanência de Levi no período citado.

O livro é dotado de 8 capítulos e uma Conclusão, ao longo das poucas e pesarosas 168 páginas. Para dar início e já situando o leitor ao intervalo entre acontecimentos e publicação do impresso, Levi dá voz à "memória", enfatizando a possível opacidade dos fatos. Aqui, ele discorre sobre o oprimido e o opressor, o sentimento de cada um, chegando à compreensão (ou talvez à busca, mesmo que tímida, pelos motivos) do que poderia ter sido passado pelos opressores.

Além disso, fala-se da modificação da lembrança para suprimir a culpa e viver sem danos posteriores, como o que foi feito por alguns oficiais da "SS" (Schutzstaffel, organização militar nazista).
"(...) nas afirmações e nas desculpas de homens com gravíssimas responsabilidades, como Höss e Eichmann, é patente o exagero e, mais ainda, a manipulação da recordação. Ambos nasceram e se educaram muito antes que o Reich se tornasse verdadeiramente "totalitário", e sua adesão havia sido uma escolha ditada mais pelo oportunismo que pelo entusiasmo."
Já no segundo capítulo, ou "Zona Cinzenta", um dos mais impactantes do livro, observa-se a atribuição de trabalhos de comando desonrosos aos próprios prisioneiros, sendo oferecido, em troca, concessões pífias, como um pouco a mais do alimento diário (ração).

Uma descrição extremamente custosa de acompanhar foi a que tratava dos Esquadrões Especiais, designados aos trabalhos nas câmaras de gás que, após o término de seu período na chefia, os esquadrões eram mortos de forma que não pudessem se rebelar "e o esquadrão sucessivo, como iniciação, queimava os cadáveres dos predecessores".

A dualidade bem/mal é frequentemente mostrada nos filmes e livros sobre a Segunda Guerra Mundial: havia os "bonzinhos" maltratados pelos "malvados". Primo mostra que em um lugar onde as cinzas tinham origem no sofrimento humano, essa diferenciação pouco acontecia, pois a agressão também vinha de quem deveria ser aliado, judeus condenavam judeus, prisioneiros se posicionavam contra prisioneiros.

A referida zona faz menção à localidade onde as pessoas eram ambíguas, que chegavam como prisioneiras, mas também se manifestavam carrascas em busca de privilégios, ou que paravam para ajudar algum sobrevivente, mas apresentavam a crueldade incrustada na pele - personagens a quem o autor propõe o não-julgamento, visto o cenário desnorteador.
"Ter concebido e organizado os esquadrões foi o delito mais demoníaco do nacional-socialismo. Por trás do aspecto pragmático (fazer economia de homens válidos, impor a outros as tarefas mais atrozes) se podem ver outros mais sutis. Através dessa instituição, tentava-se transferir para outrem, e precisamente para as vítimas, o peso do crime, de tal sorte que para o console delas não ficasse nem a consciência de ser inocente.
Ao final da guerra, os arquivos contidos nos Lager foram destruídos, assim com o máximo de provas, e muitos atos cometidos lá permanecem sem respostas, incluindo o quantitativo do genocídio (Primo Levi apresenta a estimativa de 4-8 milhões de pessoas). Segundo o escritor, oficiais foram ouvidos alegando que a atrocidade foi tamanha que a população não acreditaria na desumanização ocorrida se não houvesse evidência.

Ao procurar sobre a veracidade dos fatos representados por Levi, é possível encontrar uma série de pesquisas que chegam à conclusão de que sua postura é próxima à realidade, como a monografia intitulada Memória e testemunho: relatos de sobreviventes do Holocausto, acerca da obra de Primo Levi, Elie Wiesel e ChilRajchman.

Muita coisa ainda permanece oculta, mas, como o próprio autor afirma, livros como esse devem ser sempre divulgados, para que não se esqueça do passado e para que ele não se repita. Levi, que teve sua morte em 1987, suspeita de suicídio, já que sofria de depressão,  mostra algumas passagens que suscitam uma morbidez incalculável após o momento da libertação dos campos de concentração, o que faz concluir que "A Trégua", uma leitura igualmente necessária, parece ser tão bem feita, contudo, tão propensa a um tom ainda maior de lamentação.
"Este livro pretende contribuir para o esclarecimento de alguns aspectos do fenômeno Lager que ainda são obscuros. Propõe também um fim mais ambicioso; deseja responder à pergunta mais urgente, à pergunta que angustia todos aqueles que tiveram a oportunidade de ler nossas narrativas: em que medida o mundo concentracionário morreu e não retornará mais, como a escravidão e o código dos duelos? Em que medida retornou ou está retornando? Que pode fazer cada um de nós para que, neste mundo pleno de ameaças, pelo menos esta ameaça seja anulada?"