04/09/2016

Nas Sombras do Estado Islâmico - Sophie Kasiki

"Converti-me em uma tarde de inverno, e a total falta de cerimonial satisfez profundamente meu desejo de continuar nessa trilha íntima e pessoal."



Sophie foge de Raca, a "capital do Estado Islâmico", de moto com o filho de 4 anos nos braços. É assim que o leitor ingressa no livro Nas Sombras do Estado Islâmico, de Sophie Kasiki, um relato sobre como a autora entrou para o grupo extremista e como sobreviveu a ele.

A autora conta como foi sua infância no Congo e como perdeu sua mãe muito cedo. Após a mudança para a França, para morar com a irmã, a única real felicidade da moça foi o nascimento das sobrinhas gêmeas, que fizeram com que se sentisse prestativa novamente e as motivaram na escolha de sua profissão. Já adulta, casa-se com Julien, tem um filho, Hugo, e consegue um emprego em uma "casa de bairro", que seria similar a um centro de assistência social. Nesse trabalho, conhece alguns muçulmanos vindos de outros países e tem contato com o preconceito dos franceses frente aos estrangeiros, o que a incomoda.


Sem saber exatamente quais os motivos da conversão (apenas manifesta um vazio interior, preenchido pela nova religião), a autora, ainda perdida, passa a seguir o islamismo à própria maneira: cobre o corpo, mas não totalmente, realiza algumas orações diárias, mas não todas, embora tenha o Corão e não coma carne de porco. Sophie passa a ter contato com alguns rapazes muçulmanos e membros do EI e, como por sutil manipulação, sente a necessidade de partir com o filho para a Síria para ajudar em uma maternidade.

A partir da travessia da fronteira turca com a Síria, o texto fica tenso e o perigo, cada vez mais próximo. A autora aborda a forte opressão sofrida pelas mulheres no contexto do extremismo, mostra o sistema de castas que exclui os próprios sírios, os negros, mas exalta os estrangeiros e dá "permissão" ao porte de armas a poucos. É mostrado o ambiente, o terror constante dos moradores do país, os programas de televisão que abordam a violência, as dificuldades até para a educação das crianças. Ao que parece, o morador da Síria sobrevive ao terrorismo se tiver boas condições financeiras, mas ninguém é isento do medo.

Na fuga da Síria, Kasiki (que utiliza também a voz do marido em alguns capítulos) recebe ajuda do Exército Livre, uma resistência ao terror que, mesmo recebendo dinheiro para agir, merece destaque pelas ações destinadas ao resgate de pessoas. O livro também informa (alerta) sobre as diferenças entre uma pessoa recém-convertida ao Islã e um potencial extremista deslumbrado com as promessas terroristas.

A forma de atração à causa é quase imperceptível, mas presente no texto quando os meninos do grupo abordam a ida de Sophie ao país desconhecido sem, ao menos, consultá-la (aqui, é como se uma ideia fosse plantada no inconsciente do membro em potencial, até que ele próprio a manifeste). Dessa forma, a mulher muda sua postura, não divide mais as angústias com os amigos e família e age sem pensar nos riscos. O espanto frente ao fanatismo dos amigos do EI pode ser observado no trecho:

"Mas ela não conseguia entender que ele pudesse ter feito algo assim. Andar armado? Juntar-se a um exército? Ir para a guerra? Era inimaginável. ele, que sempre carregara as sacolas de compras. Ele, que protegia os menores. Ele, que era tão gentil."

Longe de ser um texto plenamente bom, o conteúdo é interessante e pertinente à atualidade. Certas informações não são mencionadas no momento mais oportuno, alguns artifícios da língua são usados indiscriminadamente, contudo, é ágil, a visão do sistema é ampla e apresenta os perigos da intolerância e da compreensão errônea de uma das religiões mais antigas da história.


"Quem mencionou a minha ida? Acho que ninguém. A ideia não se formulou de maneira clara, mas simplesmente foi se tornando aceitável. "Você vai ver, Sophie, vai comprovar que não estamos mentindo", (...) "Acredite, não vai se arrepender"."